quinta-feira, 26 de outubro de 2006


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Por isso cumpre a todas as pessoas, e às donas senhoras muito mais cumpre pois são as que aventuram mais, que ao princípio das cousas olhem onde elas podem ir parar, que não há nenh~ua tamanha que no começo dela se não possa resistir ou leixar sem trabalho. Que muitos rios grandes há i que, onde nascem, se podiam empedir com um pé ou levar pera outro cabo, e no meo deles, ou depois que colhem forças, todo o mundo junto não os poderá tolher ou mudar: chama ~ua ágoa outras ágoas, um ribeiro outros, em pequeno espaço crecem de maneira que se não podem depois deixar. Grandemente devia cada um cuidar se o que faz, ou detremina fazer, é cousa honesta e que convenha; que, se lhe sae bem, todos lho têm a bem, e se não, ainda que o mundo lho tenha a mal (o que muitas vezes acontece porque, mal pecado, já os conselhos não são julgados senão polas saídas deles), não tem ao menos de que se queixar consigo. E grande bem é, a meu ver, escusar, a pessoa imizades dentre si, pois não há lugar cá neste mundo que defenda a ninguém de si mesmo. Podem-se tolher imigo e imiga, frio e chuiva; cuidado, pode-se não tomar, mas tolher, não. Já a quem faz o que deve, saindo-lhe como deve, não quero afirmar que lhe não dará paixão, que a perda de qualquer prepósito, ainda que seja desarrezoado, a dá. Mas assi digo, que se lhe der paixão, dar-lhe-á o sofrimento pera ela, que bemaventurado se pode chamar nesta vida quem tem dor que se soporta, pois, segundo parece, não se pode viver sem ela, assi ou assi.


(RIBEIRO, Bernardim - Menina e Moça,

Editorial Comunicação, 1984,

Col. Textos Literários, pp. 134-135)



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deveríamos tomar, então, consciência que inicado um processo só se sai dele, quando concluído: "...chama uma água outras águas, um ribeiro outros..."

2 comentários:

Alien8 disse...

E também que, de um modo geral, estamos sempre tramados... ou fui eu que li mal. Giro, este Bernardim :)

Rosalina disse...

não, alien, creio que também leste bem. mas se assim não fosse, se não nos envolvêssemos, acabávamos por não viver, afinal.