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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Alguém


Alguém me diga mais, alguém me ofereça
O silêncio em madeira trabalhada;
Alguém me mostre a ponte que atravessa
Os rios que vão dar à madrugada.


Alguém, sem telefonar a ver se estou, 
Me toque à campainha da loucura
P'ra me contar a história do que sou,
Ponto por ponto, em filme de aventura.


Alguém me invente um semáforo do medo,
Alguém me explique esta cidade estranha
Onde em cada jardim mora um segredo
E em cada apartamento há uma montanha.


E à noite, quando as sombras são mais frias
E os fantasmas  desenham a ilusão,
Ria de mim, das minhas fantasias 
E dê a sua voz à minha mão.

(O Despertar dos Verbos, Edium Editores)

Imagem: ODANI, Motohiko

segunda-feira, 3 de março de 2008



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por Núria Masot, A Sombra do Templário, pp 216-217

(...) Sempre segundo ele, essas mesmas personagens reescreveram a história e adequaram-na aos seus interesses. Com o tempo, eram tantas as falsificações e as contradições, que nem eles próprios conseguiam distinguir onde começava a verdade e terminava a mentira. O homem de que falo estava convencido de que o poder necessita de mentir para conservar os seus privilégios e de que tudo isto não passava de um grão de areia na história da infâmia.
- Ou seja, acreditas que os pergaminhos são autênticos?
- A minha segunda resposta, meu filho - continuou Jacques sem se levantar - , é que sou apenas um servidor do Templo, que não me interessa nem a verdade nem a mentira, quando estas estão tão intimamente ligadas que, sendo opostas, acabam por ser iguais. Sou velho, Guillem, aprendi a suportar a mentira dos poderosos, mas suportar não é acreditar.
- Tens a noção do que representa, do que significa este achado, Jacques? Todo o poder de Roma, da Igreja, se baseia na ressurreição de Cristo, no privilégio dos primeiros doze apóstolos, com quem partilhou o mistério.
- Pára de pensar, rapaz, ainda acabas por endoidecer - atalhou Jacques, com um gesto de mau humor.
- Os doze apóstolos foram os únicos que conheciam a verdade, e a autoridade de Roma, do Papa, emana directamente deles, da sua experiência. Pedro foi a primeira testemunha da ressurreição. E se mentiram? - Guillem parecia pensar para si mesmo, concentrado nas suas próprias reflexões, alheio à expressão de indiferença do Bretão. - Tens a noção, Jacques? A ressurreição converteu esse grupo de apóstolos num poder incontestável. Ninguém podia aceder a Cristo senão através deles e dos seus continuadores, até agora.
- E que importância tem isso, Guillem? Que diacho interessa isso agora? É assim tão vital descobrir quem mentiu? Alguém o fez, disso não há dúvidas, mas é possível que eles falassem em sentido simbólico, não real, do momento da morte como uma ressurreição espiritual, de iluminação.
- E alguém transformou isso num instrumento do poder - respondeu Guillem de sobrolho franzido.
- E depois, Guillem, o que é que essa teoria vem alterar? O mundo avança mentira sobre mentira, sempre foi assim desde o princípio dos tempos, e assim continuará a ser, o poder é o eixo sobre o qual dançamos, rapazinho, pára de me aborrecer!
- Nenhuma dessas respostas me serve, Jacques.
- Está bem, eu percebo, mas não tenho outras. Vais ter de construir as tuas próprias respostas, filho, e agira em consequência.
Guillem calou-se, absorto nos próprios pensamentos. A autoridade do Papa decorre directamente de Pedro, pensava, e à Igreja dos primórdios, abalada por graves confrontos internos, convinha-lhe aceitar aquela verdade, a ressurreição de Cristo como um facto real e literal. Os benefícios eram imensos, um poder sobrenatural imenso, de além-túmulo, que lhes oferecia o poder absoluto sobre a multidão de crentes. Um poder para alguns, poucos, escolhidos...
- Em que acreditava o Bernard no meio de tudo isto, Bretão?
O jovem procurava a segurança do mestre.
- O Bernard acreditava na vida e na existência irrefutável dos espiões do Papa. - Jacques soltou um gargalhada. - Deixa isso, rapaz, por esse caminho não consegues nada, dá meia volta e penetra no teu íntimo, é aí que estão as respostas.

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terça-feira, 1 de janeiro de 2008


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por José Rodrigues dos Santos,
em A Filha do Capitão, pág. 374, Gradiva

(...) O capitão admirou-lhe a determinação, a coragem, aquela não era uma mulher de lamechices, parecia delicada como uma flor mas era afinal dura como uma rocha. Isso assustou-o um pouco, esperava que as mulheres fossem todas dóceis, submissas e frágeis, era assim que se educava em Portugal, mas esta francesa era tesa e o português surpreendeu-se a si mesmo por sentir que tal até lhe agradava. Aquela determinação que se lhe lia nos olhos parecia-lhe ao mesmo tempo assustadora e admirável, o que, inexplicavelmente, o fazia amá-la ainda mais. Era como se temesse que um dia ela o abandonasse com a mesma ligeireza com que agora se afastava do marido, como se mudar de vida fosse tão fácil como virar a página de um livro; não há dúvida de que, nestas coisas de romper as relações, as mulheres são mais corajosas do que os homens. Encarando-a deste modo, o capitão começou a perceber que para amar uma pessoa era preciso admirá-la.
(...)

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Claro.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007


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por Eliette Abécassis,
in Qumrân, O Enigma do Mar Morto, pág. 126

(...)
E reconheci que a sabedoria leva vantagem sobre a loucura, como a luz leva vantagem sobre as trevas. Os olhos do sábio estão na sua cabeça e o insensato anda nas trevas, mas reconheci também que um mesmo destino espera a ambos. Porque a memória do sábio não é mais eterna que a do insensato, e, passado algum tempo, tudo igualmente se esquece. Mas então? Tanto morre o sábio como o ignorante.
(...)

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Devemos, então, querer ser loucos ou sábios?!...


segunda-feira, 12 de novembro de 2007


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por Antero de Quental,
Tesouro Poético da Infância



Este livrinho, destinado exclusivamente à infância, dedico-o às mães e cuido fazer-lhes um presente de algum valor.


Convencido de que há no espírito das crianças tendências poéticas e uma verdadeira necessidade de ideal, que convém auxiliar e satisfazer, como elementos preciosos para a educação – no alto sentido desta palavra, isto é, para a formação do carácter moral – coligi para aqui tudo quanto no campo da poesia portuguesa me pareceu, por um certo tom ao mesmo tempo simples e elevado, ou ainda meramente gracioso e fino, poder contribuir para aquele resultado, em meu conceito, importantíssimo.


Destina-se pois este volumezinho sobretudo à leitura doméstica. Talvez que não fosse também descabido nas escolas de primeiras letras: mas receio que a simplicidade quase sempre pueril dos assuntos e a tenuidade do estilo pareçam a muitos mestres destoar daquela gravidade pedagógica, que, em seu entender, é atributo do ensino. Direi que pela minha parte, não o entendo assim: penso, com Froebel e João de Deus, (e com a razão e a natureza) que o tipo do ensino é o maternal, o que segue passo a passo as tendências naturais e acomoda o método e doutrina à condição peculiar do espírito infantil. Para uns entezinhos, em quem tudo é movimento e imaginação, a escola, se não for jardim, será só prisão, a doutrina, se não for encanto, será só tortura.


(...) A poesia é o ideal percebido instintivamente.



É por tais motivos que a poesia constitui o instrumento por excelência acomodado para desenvolver, e até evocar, na alma infantil, aquele sentimento do bem e do belo, sem o qual, mais tarde, a própria rectidão do carácter degenera numa dureza intolerante e estreita, a própria penetração da inteligência numa agudeza sofística e estéril. Em tempos primitivos, foi a poesia o veículo da doutrina e a linguagem própria das coisas ideais, para a humanidade ainda infante: sê-lo-á sempre para a infância, porque cada criança representa verdadeiramente, na sua constituição mental e psicológica, um resumo exacto daquela primordial e incipiente humanidade. A doutrina terá sempre de lhe ser revelada em forma de mitos, de exemplos e de imagens – isto é, em forma não só de poesia, mas de poesia simples e, na sua essência, primitiva.


(...)


Em compensação, recorri, quanto me foi possível, à poesia popular. O povo é uma grande criança colectiva, é o eterno infante...No seu conceber as coisas, no seu sentir, no seu dizer, estão ainda presentes, como o estão nas crianças, aquelas faculdades intuitivas que presidiram, há muitos séculos, ao alvorecer do espírito humano e produziram os mitos, as lendas, os cantos heróicos, com que, no seu berço, se embalou tão poeticamente a humanidade. Dizer popular é pois dizer infantil. Todos têm notado como as crianças se dão bem com a gente do povo. É que uns e outros são simples. E todos nos recordamos do prazer delicioso com que escutávamos, na meninice, os contos maravilhosos ou os romances e cantigas com que alguma criada velha nos sabia encurtar, como por encanto, as horas largas dos serões de inverno. É que naquelas histórias e naqueles cantares, encontrava a nossa imaginação a forma exacta dos seus indistintos devaneios; o nosso sentimento, a expressão natural das suas vagas aspirações. Aqueles eram os símbolos próprios para a nossa ingénua concepção do ideal; e se os soubéssemos compor, assim é que os teríamos composto. A voz do povo parecia-nos o eco do nosso próprio pensamento.

(...)


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Deliciosa esta Advertência com que Antero de Quental nos presenteia...
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sábado, 13 de outubro de 2007


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por Elie Wiesel, Amanhecer, pág. 85, Texto Editores


Desci, pois, à cave para melhor o odiar. Pensava: não será difícil. Há uma técnica já testada e da qual todos os exércitos do mundo, todos os governos da história se serviram para provocar o ódio. A técnica é a seguinte: recorrendo sobretudo a propaganda, a discursos, a filmes, cria-se uma determinada imagem do inimigo, na qual vemos uma incarnação do mal, o símbolo de todo o sofrimento humano, a causa e a origem de toda a injustiça, de toda a crueldade, desde o primeiro dia da criação do universo. Esta técnica é infalível, repetia para mim mesmo. Servir-me-ei dela contra a minha vítima.

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Alguém anda a usar esta técnica lá para o Ministério da Educação.


segunda-feira, 3 de setembro de 2007




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por Rui Tavares, O Pequeno Livro do Grande Terramoto, pp. 78, 79, Tinta da China


O facto de as consequências do terramoto terem confirmado uma visão pessimista da natureza humana é, pois, o que mais impressiona alguns autores, entre eles um certo António dos Remédios, numa Resposta à Carta de Jozé de Oliveira Trovam e Souza:


Quando ha peste ainda naõ falta quem assista aos enfermos com o risco de ficar contagiado, quando ha fome tambem ha quem se prive de alimento para acudir ao faminto; quando ha guerra naõ falta quem arrisque a vida propria por salvar a do amigo, Pay, ou parente; mas na occasião do terramoto se verificou aquelle adagio atéqui pouco verdadeiro, de que naõ ha Pay por filho, nem filho por Pay.


Há algo neste parágrafo que merece uma paragem para um comentário breve, porque aquilo que ele tenta de forma muito resumida é avançar com uma hipótese de explicação para estas atitudes egoístas - no sentido mais próprio de «preservação do eu». E, mais notável ainda, essa explicação radica na própria natureza do terramoto enquanto catástrofe diferente de todas as outras, catástrofe pura porque catástrofe descontextualizada.

Em todas as outras ocasiões das misérias humanas há quem mostre o pior, mas também o melhor, da nossa natureza. Na peste, na guerra, na fome, há quem se coloque em risco para ajudar o próximo; no terramoto não. Mas o que todas as outras calamidades têm de comum entre si, e de distinto do terramoto, é serem prolongadas no tempo, ou melhor: é terem um contexto. Num contexto é possível fazer escolhas. Mas o sismo chega de repente; não se sabe que vai começar nem quando acabará - e os mesmos crentes com o coração cheio de amor caridoso que se encontravam na missa momento atrás tiveram então de fazer as suas escolhas munidos apenas do mais básico dos seus corpos e consciências - e não de sistemas morais desenvolvidos durante milénios ou descritos com filosofia rebuscada. É essa a diferença, e por isso o terramoto é tão verdadeiro: revela os humanos despidos de cultura, que é o seu contexto.

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Salvaguardando as devidas distâncias e metaforizando este excerto, há, sem dúvida, similitudes com a actuação governamental, em particular, com o ministério da educação.




segunda-feira, 30 de julho de 2007



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por José Rodrigues dos Santos, O Codex 632, pp. 119-120, Gradiva

"Exactamente. De resto, e se formos a ver bem, esta política fazia todos o sentido. Os portugueses eram um povo pequeno e com recursos limitados, não seriam capazes de competir com as grandes potências europeias em plano de igualdade se todos partilhassem a mesma informação. Eles perceberam que a informação é poder, e, conscienciosos, guardaram-na com grande avareza, preservando assim o monopólio do conhecimento sobre esta matéria estratégica para o seu futuro. É certo que o silenciamento não era total, mas selectivo, ocultando apenas determinados factos sensíveis. Note que havia situações em que, pelo contrário, até era conveniente publicitar as descobertas, uma vez que a prioridade da exploração de um território era o primeiro critério na reivindicação da sua soberania."

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Eles perceberam que a informação é poder... - lição apreendida.

segunda-feira, 16 de julho de 2007


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por António Ramos Rosa


As palavras mais nuas as mais tristes.
As palavras mais pobres
as que vejo sangrando na sombra e nos meus olhos.
Que alegria elas sonham, que outro dia, para que rostos brilham?
Procurei sempre um lugar onde não respondessem,
onde as bocas falassem num murmúrio quase feliz,
as palavras nuas que o silêncio veste.
Se reunissem para uma alegria nova,
que o pequenino corpo de miséria respirasse o ar livre,
a multidão dos pássaros escondidos,a densidade das folhas,
o silêncio e um céu azul e fresco.


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as palavras. as nossas palavras, às vezes, ficam mudas. e os silêncios são assim azuis e frescos sempre à espera de outro dia.

sábado, 7 de julho de 2007


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por Eça de Queirós, pp. 163-164, prosas esquecidas IV, Editorial Presença 1965


Num momento indubitavelmente perigoso, quando se abalam as fronteiras dos reinos; quando há oscilação na carta da Europa; quando se aproxima a época do derrubamento de instituições, e de transformações sociais; quando se precavêem nações com armamentos, invenções, organizações; quando a política de alianças suscita desconfiança às potências dominadoras; quando as pátrias vão ser revolvidas, como nos tempos geológicos se revolvia a terra; quando se agita a política de arredondamento de nacionalidades, de inutilidade de pequenos países, e a política de fraccionamento de estados, e de inconveniente das grandes extensões políticas, neste momento de perigo para Portugal, de luta para a Espanha, de miséria para ambos - a Folha do Sul ri-se!
Quando um ministério toma intimidades injustas, adopta imitações perniciosas, consagra relações desairosas com aqueles sistema doutrinário do governo espanhol, que não podendo sustentar-se pela liberdade, se sustenta pela ditadura; quando um ministério corteja e aplaude todo o sangue liberal que cobre o corpo inteiro do general Narvaez; quando adopta as ideias dos modelos de Espanha, que declaram que lhe é insuportável a liberdade, que é necessária a inquisição; quando esta união de factos, de ideias, de vistas cortesãs, inquieta os nobres espíritos, as consciências livres, os filhos daquela gente que teve fome e frio no cerco do Porto, e netos dos que se bateram pela independência da Península, e que viram as casa queimadas, as famílias assassinadas, as fortunas dispersas; quando se desenham no espírito estas negras dores - a Folha do Sul ri-se!
Já vêem que é o riso dos antigos bobos cortesãos, meios doidos e meio perversos.
A Folha do Sul ri-se mais por não sabermos aritmética, pela nossa obscuridade de ideias, por não sabermos geografia.
Ora nós sabemos mais aritmética decerto do que aqueles que apoiam o ministério destruidor das finanças.
Temos mais lucidez de ideias do que aqueles que, para combater princípios, procuram em todo o seu interior, no pensamento, no espírito, na alma, no coração, no instinto e na vontade, e só acham a chufa!
Sabemos mais de geografia decerto do que aqueles que apoiam um ministério que quer chamar a fronteira de Espanha até ao Oceano Atlântico!
A Folha do Sul ri-se, porque considera a pátria o tablado de uma forca.
Mas na imprensa combatem-se ideias, discutem-se princípios, debatem-se sistemas, argumentações, métodos, mas não se provocam risos. O lugar augusto das ideias não é o recanto cómico das risadas.
Quem tem a alma cheia de impropérios, de desonestidades, de cinismos violentos, não vem para aqui, para a imprensa. Para a imprensa vêm os que têm uma ideia, um princípio generalizador, uma alma criadora. Aqui não é o lugar dos que se riem.
Depois da traição, não venha o escárnio. Já bastante ferida está a liberdade, a fortuna popular, a administração pública; este pobre país não tem já a vitalidade dos fortes.
Os que aplaudem o imposto de consumo e a guarda civil, já lhe deram as punhaladas; não lhe atirem agora as imundícies!


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Assim escrevia Eça de Queirós sobre o Estado da Nação no Ano da Graça de 1867. Ainda assim actual...




quinta-feira, 12 de abril de 2007







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por Agustina Bessa Luís, in Os Incuráveis

"...Como uma estátua de pedra o autor fica, com um dedo dobrado sobre os lábios, cismando na sua obra incompleta. E esta obra ei-la incompleta. Quantos finos e significativos rastos humanos escaparam, quantos pensamentos apenas estremecidos ficaram na sua origem! Tanta coisa pequena e morta, tanta coisa imorredoira e desperdiçada! (...) Ai tanta coisa importante que deixei, que esqueci! Quando penso!"

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é esta consciência da perda que, por vezes, nos assusta tanto, a tantos.


quinta-feira, 29 de março de 2007


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por Virginia Woolf, in As Ondas,
pág. 152, Relógio d'Água
Muitas vezes as impressões visuais transmitem breves manifestações que no futuro seremos capazes de desvendar e de formular em palavras. Por isso anoto na página do B: «Barbatana numa extensão de água.»
Eu que passo a vida a cobrir de notas a margem da minha memória, com a intenção de as utilizar numa comovente descoberta final, escrevi estas palavras a pensar numa noite de Inverno.

quinta-feira, 22 de março de 2007



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por Karen Blixen, África Minha,
pág. 166, Público
A verdadeira aristocracia e o verdadeiro proletariado do mundo partilham a compreensão da tragédia. Para ambos, este é o princípio fundamental de Deus e a chave da existência. Neste aspecto, são diferentes da burguesia de todas as classes, que nega a tragédia, que não a tolera e para quem essa palavra significa algo de desagradável. Muitos mal-entendidos entre os colonizadores brancos da classe média e os nativos derivam desse facto. Os sombrios massais são a um tempo aristocracia e proletariado e devem ter reconhecido de imediato no viandante solitário vestido de preto uma figura da tragédia. E junto deles, o actor trágico deve ter-se sentido no seu verdadeiro elemento.
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A mediania da burguesia.
O pretensiosismo das classes médias mascaradas de palavras falaciosas. A mentira que se esconde por detrás de propaganda. As explicações que se dão a desculpar aquilo que sempre se soube ser mentira. Isto a propósito de algumas falhas...

quinta-feira, 1 de março de 2007


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por António Ramos Rosa,
in No Calcanhar do Vento, pág. 70, Centelha
O Círculo da Casa
Sem te nomear e quase sem te ver, tu és o círculo
que me envolve quotidiano na sua luz pacífica.
Não te dissimulas, estás aqui, obliquamente
ao meu olhar, enquanto escrevo e em ti reparo.
A sabedoria simples seria estar em ti e onde estou
com todos os objectos calmos e as cores vivas
e a luz que em seus rectângulos é já presença
de quanto não sabemos e ainda esperamos.
O solo é um enigma simples, suave amêndoa
e é talvez o centro de um ser que se distrai.
Tácito é o amor que, sem o saber, é espaço
e adere à paz de um latente paraíso.
Aqui mesmo, sem pressa, é o gérmen e o aberto.
E o ócio e o sabor do mundo numa corrente sossegada.
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pois. assim.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007


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por Karen Blixen, África Minha,

pág. 161, Colec. Mil Folhas, Público



Eu continuava a cavalo enquanto ele falava comigo, a fim de acentuar que não se tratava de um convidado, pois não me apetecia tê-lo a jantar comigo. Mas à medida que ele ia falando, vi que não esperava ser convidado, pois não tinha fé na minha hospitalidade nem no seu poder de persuasão, e que era uma figura solitária ali no escuro, à porta da minha casa, um homem sem um amigo que fosse. Os seus modos calorosos destinavam-se não a salvar a sua própria face, o que estava fora de questão, mas a minha, pois se agora o mandasse embora isso não seria uma falta de gentileza da minha parte, mas qualquer coisa de justo. Na sua atitude havia a cortesia de uma animal acossado. Chamei o meu Sice para levar o pónei e desmontei.

- Entre, Emmanuelson - disse-lhe. - Pode jantar aqui e passar cá a noite.


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o constrangimento que os outros nos fazem sentir tantas vezes altera, outras tantas, as nossas decisões.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007


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por Karen Blixen, África Minha, pp. 146-147,
Colec. Mil Folhas, Público




(...)Quando nos tornámos mais íntimas, as raparigas perguntaram-me se era verdade o que tinham ouvido dizer, que certos povos da Europa dão as raparigas de graça aos maridos. Haviam-lhes contado, mas elas não podiam crer que houvesse uma tribo tão depravada que pagasse ao noivo para se casar com a rapariga. Que vergonha para esses pais e para as raparigas que se submetiam a ser tratadas dessa maneira! Onde estava o respeito por si mesmas, o respeito pela mulher, pela virgindade? Se tivessem nascido nessa tribo, disseram-me elas, teriam feito o voto de ir para o túmulo solteiras.

Nos nossos dias, na Europa, não temos oportunidade de estudar a técnica da modéstia virginal, e nos livros antigos nunca consegui captar o seu encanto. Só então compreendi como o meu avô e o meu bisavô caíram de joelhos em adoração perante as suas mulheres. O sistema somali era a um tempo uma necessidade natural e uma arte requintada, era simultaneamente uma religião, estratégia e ballet, sendo praticado em todos os seus aspectos com a devida devoção, disciplina e destreza. A sua grande beleza reside no jogo de forças opostas existentes no seu âmago. Por trás do eterno princípio da recusa , havia muita generosidade; por trás do pedantismo, quanto escárnio e desprezo pela morte. Estas filhas de uma raça de lutadores submetiam-se a este cerimonial de pudor como a uma grande dança guerreira cheia de graciosidade; a manteiga não derreteria na sua boca nem elas teriam repouso até terem bebido o sangue do coração do seu adversário. Pareciam três ferozes lobas ainda jovens vestidas com peles de cordeiros. Os somalis são um povo vigoroso, endurecido nos desterros e no mar. Os grandes pesos da vida, uma opressão tenaz, as vagas alterosas e muitos e muitos séculos devem ter transformado as suas mulheres em âmbar duro e brilhante.



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realmente, nós, os europeus, somos uma tribo estranhíssima...

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

(...)Declarou com todo o vigor que preferia dez vezes ver Sirunga devorado pelos leopardos do que perder Kabero, que, se tinha perdido Kabero, mais valia perder também Sirunga, que isso lhe era indiferente, pois Kabero, e só Kabero, havia sido a menina dos seus olhos e o sangue do seu coração.
Se, na realidade, Kabero estava morto, eu tinha à minha frente David a lamentar o seu filho Absalão, e nada havia a fazer para remediar essa tragédia. Mas se ele estivesse vivo e escondido na reserva dos massais, era mais do que uma tragédia, tratava-se de uma luta, ou fuga, um combate pela vida de uma criança.
Foi-me dado assistir nas planícies ao espectáculo das gazelas a fazerem este jogo, quando eu, inadvertidamente, me aproximava do local onde tinham escondido a cria recém-nascida. Dançam à nossa frente, cortam-nos os passos, pulam, fazem cabriolas, fingem-se coxas e incapazes de correr - tudo para desviar a nossa atenção dos filhos. E, repetidamente, quando estão mesmo debaixo das patas do cavalo, avista-se a corça, imóvel, com a cabecinha rente à erva, tentando salvar a vida enquanto a mãe dança para a proteger. Um pássaro pode fazer o mesmo para proteger os filhos, bate as asas e esvoaça, e até representa o papel da ave ferida que arrasta a asa pelo chão.
E ali estava Kaninu a representar para mim. Como era aquele velho Kikuyu capaz de tal calor e de tantas piruetas ao pensar que a vida do filho se encontrava em jogo? Os seus ossos estalavam com a dança, parecia mesmo mudar de sexo, assumindo a aparência de uma velha, de uma galinha, de uma leoa - pois aquele jogo era uma actividade claramente feminina. Era um espectáculo grotesco, mas ao mesmo tempo altamente respeitável, que fazia lembrar a avestruz quando a fêmea está a chocar os ovos. Nenhum coração feminino poderia ter resistido àquela representação.
- Kaninu - disse-lhe eu - quando Kabero quiser voltar para a fazendo pode fazê-l, que nenhum mal lhe acontecerá. Mas nessa altura tens de o trazer à minha presença.
Karen Blixen, África Minha
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"...pois aquele jogo era uma actividade claramente feminina. Era um espectáculo grotesco, mas ao mesmo tempo altamente respeitável,..."
a respeitabilidade do amor mais genuíno demonstrado de forma forte e grotesca.
fantástica a natureza feminina.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007


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por Karen Blixen, in África Minha
(...)Era curioso ver as minhas velhas Kikuyus em camas e lençóis brancos, semelhantes a velhas mulas muito gastas ou qualquer outro animal de carga paciente; elas próprias se riam da situação, mas era um riso amargo, como o de uma mula velha, pois os nativos têm medo de hospitais.
(...)
Os nativos, se não ficam paralisados e emudecidos pelo medo que têm do desconhecido, lamentam-se e resmungam muito no hospital e arquitectam planos para se escaparem. A morte é um dos meios que usam para este fim, pois não a temem. Os europeus que construíram e equiparam os hospitais e que neles trabalham, tendo feito uso de muito esforço para arrastarem até lá os doentes, lamentam-se amargamente que os nativos ignorem o que é a gratidão, não reconhecendo o que se faz por eles.
Para os brancos há algo de vexante e de mortificador neste estado de espírito dos nativos. Na verdade, é indiferente o que se faz por eles; por muito que se faça, aquilo que se faz desaparece e nunca mais se ouve falar disso; não agradecem, mas neles não existe maldade e, mesmo que se queira, nada se pode fazer a este respeito. Trata-se de uma qualidade alarmante, que parece anular a nossa existência como seres humanos e infligir-nos um papel que não escolhemos, como se fôssemos um fenómeno da Natureza, qualquer coisa como o tempo atmosférico.
Neste aspecto, os imigrantes somalis são diferentes dos nativos do país. (...) São maometanos severos e, como todos os maometanos, têm um código moral segundo o qual nos julgam. Com os somalis pode adquirir-se ou destruir-se o prestígio numa hora.
(...)
Mas os kikuyus, os wakambas ou os kavirondos, isentos de preconceitos, não conhecem qualquer espécie de código. Consideram que a maior parte das pessoas são capazes da maior parte das coisas e não se consegue escandalizá-los ainda que se queira. (...) Não nos julgam, mas são observadores perspicazes. A soma das suas observações traduz-se na reputação que granjeamos aos seus olhos, na nosso boa ou má fama.
Nesse sentido, as pessoas muito pobres da Europa são como os kikuyus. Não julgam, mas fazem um somatório do que observam. Quando gostam de uma pessoa, ou por ela sentem estima, é da mesma maneira que amam Deus, não por aquilo que se lhes faz, mas pelo que se é.


quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

Sabendo que o diálogo é o instrumento-chave de toda a comunicação e que a própria comunicação é a necessidade dominante do ser humano social por excelência, só melhorando a nossa capacidade e fluidez de diálogo perguntando, ouvindo com tolerância, aumentamos a nossa capacidade de comunicar.
Eduardo Criado

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

A transmissão literária, para poder efectuar-se de modo perdurável, pressupõe, em primeiro lugar o conhecimento e o uso da escrita. Esta existiu na Grécia desde tempos muito mais recuados do que ainda há poucos anos se supunha. Com efeito, desde que, em 1953, o arquitecto inglês M. Ventris, coadjuvado pelo filólogo J. Chadwick, decifrou o chamado Linear B, sabe-se que já no século XV a.C. os Micénios se serviam de um silabário para fazer os seus registos, silabário esse que deriva do Linear A, ainda não decifrado, que usavam os Minóicos. Precisamente porque a língua empregada no Linear B era já grego, foi possível estabelecer esta equação, doravante fundamental: que os Micénicos eram Gregos.
Mas este complicado processo de escrita, que usa de um sinal diferente para cada sílaba (e não de um para cada som, como o alfabeto) desaparece por completo da memória dos homens com a chamada invasão dórica, em 1100 a.C., e assim fica no olvido até que a enxada dos arqueólogos o faz reaparecer, em tempos modernos.
O certo é que os Gregos que vieram depois se sentiram na necessidade de importar um sistema de escrita da Fenícia, o alfabeto, que adaptaram como puderam à sua fonética. É este alfabeto, aliás, com diversas variantes locais, que mais tarde há-de servir de modelo ao latino, ao gótico e ao cirílico e, deste modo, está na base de todos os processos de escrita em uso na Europa actual.
Quando se fez essa importação não sabemos. Talvez fosse pelos meados do séc. VIII a. C. . No estado a actual da Ciência, dá-se como sendo de c. 725 a.C. a mais antiga inscrição encontrada.
Mas o facto de existir a escrita, e de ela ser usada para consignar acontecimentos dignos de registo, não quer dizer que fosse empregada para fixar as obras literárias. E, de facto, há provas bastantes de que a poesia primitiva era exclusivamente oral. Supõe-se mesmo que teria sido com o aparecimento da prosa que se constituiu o hábito de compor livros, o que teria ocorrido pelo séc. VI a.C., com a obra do filósofo Anaximandro. De outro filósofo posterior, Heraclito, sabemos nós que depôs o seu livro no templo de Ártemis em Éfeso, sua cidade natal, certamente para impedir que se perdesse. Também é seguro que o historiógrafo Hecateu compôs um livro. No séc. V a.C., a prática estava generalizada, e, no séc. IV, tão arraigada que, como escreveu espirituosamente o Prof. E. G. Turner, da Universidade de Londres, começa desde então a «tirania do livro». Notemos, porém, de passagem, que a tradição do ensino oral, praticado ainda, ao que parece, pelo mais antigo filosofo, Tales de Mileto, perdura noutros grandes nomes, como Pitágoras e Sócrates, e Platão proclama a superioridade deste sobre o escrito.
Maria Helena da Rocha Pereira, 1979
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apesar do excelência da escrita a poesia deve ser sempre dita...