sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Na Língua Portuguesa há um certo número de palavras altamente expressivas do que a nossa sensibilidade possui de mais íntimo e característico, e, por isso, sem equivalentes nas outras Línguas.
Mas conhecemos ainda uma célebre palavra animada pelos dois princípios religiosos que definem a alma pátria.
Não precisamos de reunir vários sentimentos comuns dos portugueses, para com eles desenharmos o seu carácter mortal. Há um que o define por completo. Refiro-me à Saudade.
Analisai-a e vereis logo os elementos que a formam: desejo e lembrança, conforme Duarte Nuno de Leão; gosto e amargura, segundo Garrett.
O desejo é a parte sensual e alegre da Saudade, e a lembrança representa a sua face espiritual e dolorida, porque a lembrança inclui a ausência de uma coisa ou de um ser amado que adquire presença espiritual em nós.
A dor espiritualiza o desejo, e o desejo, por sua vez, materializa a dor. Lembrança e desejo confundem-se, penetram-se mutuamente, e precipitam-se depois num sentimento novo que é a Saudade.
Pelo desejo e pela dor, a Saudade representa o sangue e a terra de que descende a nossa Raça.
Assim, aqueles dois ramos étnicos que deram origem aos povos latinos encontram na Saudade e, portanto, na alma portuguesa, a sua divina síntese espiritual.
A Saudade pelo desejo (desejar é querer e querer é esperar), em virtude da própria natureza do desejo, é também a esperança, assim como é lembrança pela dor.
Mas, além deste aspecto definido e revelado da Saudade, existe ainda a sua feição misteriosa, vaga e indefinida, que devemos perscrutar em outros vocábulos intraduzíveis, como remoto, ermo, oculto, nevoeiro, medo, sombra, etc.
O génio da nossa Língua é o dom especial que ela tem de traduzir o sentimento saudoso da Natureza animada e inanimada.
Teixeira de Pascoaes
__________________________________________________
...porque a lembrança inclui a ausência de uma coisa ou de um ser amado que adquire presença espiritual em nós.
num fututo remoto, em palavras ermas, ocultas por névoas de medo, surgirá, primeiro, na minha vida, a tua sombra.

14 comentários:

peciscas disse...

A Saudade tem motivado belos textos na nossa língua.
Este do Pascoaes é mais um excelente exemplo.

Anónimo disse...

Quanta bruma...

Nilson Barcelli disse...

Hoje deu-te para a saudade...
Está bem, o texto é de mestre, mas gostaria de te perguntar se achas que a saudade dos portugueses é diferente da dos outros povos.
Percebo que à medida que vamos caminhando para Norte, as pessoas são mais frias e, eventualmente, sentirão uma saudade não tão vincada.
Não estará a nossa saudade, por outro lado, ligada à nossa costela árabe? O fado, por exemplo, tem algumas conotações musicais árabes. E, então, não serão os árabes mais saudosistas do que nós?
Enfim, perguntas que te deixarão "verde" de raiva. Ou então rejuvenescida... A menos que já sejas verde há muitos anos (lagarto, lagarto...).
Mas quem não é verde na língua é o Teixeira de Pascoaes. E tu também não, claro...
Confuso? Não, o verde, na nossa língua, pode ser quase tudo o que nós quisermos... mas o vinho não é grande coisa...
Bom fim-de-semana.
Beijo.

Rosalina disse...

ehehehhehe...nilson. é mesmo assim. hoje deu-me para a saudade e não saudosismo, conceito que não aprecio de todo...

mas a saudade, oh a saudade...

quanto aos outros povos...se têm/sentem saudade ou não...pois não sei. ainda não conheço o suficiente para opinar.

mas tenho as minhas dúvidas. isso tenho.

diz em voz alta a palavra saudade.

(...)

já está?
ok.

então, agora, diz-me uma língua que tenha na sua fonética a sonoridade desta palavra. três sílabas. três sons macios, quentes. que dizer então, do ditongo precedido da sibilante? sau.... excelente esta 'música'.


quanto ao verde...pois, não sei se concorde contigo. ;)

verde tem de ser sempre algo 'vivo', 'jovem', 'saltitante', 'fresco', quase inquietante porque irrequieto. ehehehehhehehe...

[puseste-me a divagar, agora...]


*eu até gosto de vinho verde.

bom fim-de-semana, também.

Rosalina disse...

exacto, peciscas.

claudynius disse...

Sinceramente acredito que todos o povos têm o sentimento da saudade. Não terão uma palavra bonita como a nossa, mas lá terão a expressão deles. Agora o que nós
latinos sentimos de uma forma única e é a Nostalgia da Saudade. Essa sim, parece-me ser exclusivamente "nossa".

Uma boa noite e um bfs

Rosalina disse...

não têm, claudynius. daquilo que conheço em termos linguísticos, é muito difícil encontrares tradução para a palavra 'saudade'.
porque não é só uma palavra.

é como diz Teixeira de Pascoaes, a nossa língua tem o dom especial (...) de traduzir o sentimento saudoso da Natureza animada e inanimada.

quanto à história da nostalgia...pois, há quem associe nostalgia a saudade. eu sinto-as de forma diferente.

Cristina disse...

e a palavra que nos diferencia, tinha que ser uma palavra que nos transmite tristeza, já viste? ó karma!

bjinhos, dorme bem..

Rosalina disse...

humm...cristina. também. mas olha que na saudade também podes encontrar a alegria de te lembrares daquilo que foi óptimo, uma vez que nunca temos saudades do que foi mau.

e dormi bem. beijocas.

claudynius disse...

Por sorte do destino, fui aluno nos anos de 1974/75 E 76, na sala nº 10 do edifício principal da Escola Industrial Afonso Domingues, em Marvila, do professor José Pedro Machado, eminente filólogo e arabista, (http://www.instituto-camoes.pt/encarte/encarte90b.htm) de quem inevitavelmente guardo gratas memórias. Diz então o professor que a palavra saudade vem do lat. solitate (isolamento, solidão) através das formas soidade e suidade (séc. XIII - D. Dinis), soedade (séc. XV – Alfonso Alvares), suydades (séc. XVI - Gil Vicente), até à saudade no séc. XX. E continuando, que saudade quereria de início significar "solidão" que uma pessoa sentia por falta do objecto ou bem desejado. Assim, quando alguém dizia "tenho saudades de casa" estaria a querer dizer "sinto solidão por não estar na minha casa".
Hoje a palavra saudade não significa "solidão" mas uma certa "lembrança nostálgica e suave de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de voltar a vê-las ou possui-las".
Por outro lado, a palavra existe em outras línguas românicas (espanhol soledad, catalão soledat, p. ex.), mas nelas manteve o significado primitivo. "Um caso particular é o do romeno dor (que não tem nada com a nossa dor, que nesta língua se diz durere), termo que significa exactamente o mesmo que a nossa saudade, com todas as suas implicações e matizes."

claudynius disse...

ops

Um bom dia de Sábado

Rosalina disse...

ora bem, claudynius. também eu tenho por aqui o tal dicionário. e junto com esse descansam outros, inclusive o de latim-português.

é solidão. claro que é solidão aquilo que sentimos, quando temos saudades.

não creio é que o facto de se sentir solidão se sinta tristeza. o facto de se estar só não é sinónimo de ser/estar infeliz ou sentir tristeza.

eu, e creio que a maioria das pessoas, sente saudades daquilo que lhe é querido ou fez, em tempos, sentir bem, feliz. e é esse momento em que recorda e está só, que sente essa saudade.

a nostalgia, nostos, regresso, viagem, algia, dor, é, por seu lado, um sentimento que ultrapassa o sentimento da saudade. estamos e somos nostálgicos, quando sabemos que aquilo que vivemos de bom, de feliz, não se repetirá.

na saudade não sentimos isso.

digo eu, claro.

sensibilidades. ;)

mfc disse...

Não precisamos inventar o que outros tão bem definiram!

Rosalina disse...

concordo, mfc. :)