sábado, 15 de setembro de 2007

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José Sócrates tinha-se gabado, no dia anterior à bênção, de o seu governo precisar de menos dinheiro e de menos professores para obter o mesmo insucesso que os anteriores: “Há dez anos havia o dobro do dinheiro, mais professores e menos alunos, o mesmo resultado, o mesmo insucesso escolar, o mesmo abandono escolar”. Louvou o insucesso mais barato, esquecendo-se que fez parte, de 1995 a 2002, de governos com a “paixão” pela educação (terá sido essa paixão a responsável pelo desperdício de recursos?) e esquecendo-se que o insucesso sai sempre caro. Logo a seguir, entrou em contradição ao afirmar que, nos últimos dois anos, os resultados escolares tinham melhorado.
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O primeiro-ministro é com certeza uma pessoa bem intencionada que deseja a melhoria dos resultados, tal como a ministra da educação e como todos nós. Mas o governo tem mostrado, pelas palavras e pela prática, uma enorme ilusão a respeito do modo de lá chegar. Não é com exames mais fáceis ou sem exames. Nem com currículos pejados de “eduquês”. E muito menos com quadros interactivos. É com o apoio aos professores e com o apoio dos professores.
O maior erro do Ministério da Educação foi ter hostilizado os professores, que são a pedra angular de qualquer sistema educativo. O governo, na sua justa luta contra sindicatos jurássicos, confundiu os sindicatos com os professores. E, tendo reparado que havia mais pais do que professores, quis pôr os pais contra estes.

Os nossos professores – agora há muito menos, para poupar – têm feito o seu trabalho em condições adversas. E, nos últimos dois anos, têm ainda de arrostar com a desconfiança de quem os tutela. No regresso às aulas, o governo devia ter incentivado os professores e, claro, os alunos. Mas falou sobre poupanças. Podia também ter poupado nas palavras.


Daqui

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É isso aí...

5 comentários:

Alien8 disse...

Com excepção da "justa luta contra os sindicatos jurássicos", essa sim, uma observação jurássica, já muito gasta e batida, o raciocínio é correcto.

Mas trata-se demasiado bem um governo que festeja o insucesso escolar, mais caro ou mais barato, e hostiliza os professores, directamente e através dos sindicatos que, bem ou mal, os representam.

Bom fim de semana.

Rosalina disse...

É Alien. Propaganda, meu caro. Eles sabem muito bem o que andam a fazer. E eu que estou todos os dias até sou capaz de dizer que, provavelmente, com estas técnicas agressivas de marketing enganam alguns...Talvez demasiados. É o toca e foge tão bem descrito neste texto:



"A abertura do ano escolar revelou uma nova forma de comunicação e propaganda do Governo: o toca-e-foge. José Sócrates, Maria de Lurdes Rodrigues e mais quatro mãos-cheias de ministros e secretários de Estado dispersaram-se pelo país em visitas--relâmpago a estabelecimentos de ensino e em operações de distribuição de computadores sem pré-aviso, para evitar acções de protesto ou contestação que estragassem a encenação pública.
Nem a Fenprof, nem o PCP, nem os professores efectivamente descontentes, nem os pais ou os alunos que quisessem fazer ouvir legítimas reivindicações tiveram tempo de reacção.
E a estratégia do Governo – que aprendeu a lição das últimas acções pré-anunciadas de José Sócrates ou de outros membros do seu Governo antes do Verão, invariavelmente aguardadas por manifestações adversas – resultou. A abertura do ano escolar passou com uma imagem de normalidade ... anormal.

Mas o mais fiel retrato do estado do Ensino e da Educação em Portugal deu-nos Paulo Ricca com a fotografia que fez capa do Público na quarta-feira: o padre de Resende a dar a benção na inauguração do Centro Escolar de S. Martinho de Mouros, com José Sócrates, Maria de Lurdes Rodrigues e o presidente do município vestidos de preto e de ar soturno e com o primeiro-ministro a benzer-se.

Benza-o Deus! – que é expressão do Norte – terão pensado milhares de professores sem colocação, mais outros tantos que, colocados, são obrigados a resignar-se aos ditâmes de uma reforma tão cheia de boas intenções como de incongruências e, mais grave, de incompetências.
Mais computadores, menos professores; docentes arbitrariamente destacados para darem aulas sobre matérias para as quais não têm qualquer habilitação nem tiveram formação específica; turmas com alunos a mais, escolas com professores a menos; estabelecimentos de ensino com autonomia mas sem orientações e sem direcções devidamente preparadas... um rol de insuficiências sem fim.
Bem faz Sócrates em benzer-se e razões de sobra tem a ministra para andar com ar de enterro. E bem podem depois os discursos políticos propagandear optimismo e números estatísticos que esbarram na miserável realidade do Ensino em Portugal. É medíocre. Continua medíocre e não há milagre que pareça poder valer-lhe.

Quando Sócrates entrou na sala de aula, se dirigiu de sorriso aberto ao jovem aluno que esperava sentado pelo cumprimento do primeiro-ministro e lhe perguntou «Estás porreiro, pá?», o rapaz não lhe deu a merecida resposta.

P.S.: O inefável professor Charrua avançou com um processo contra o Estado pedindo choruda indemnização e reintegração na DREN. Mais: afirmou que brincou, brinca e brincará com a licenciatura do primeiro-ministro. Arquive-se liminarmente."

in http://sol.sapo.pt/Blogs/mramires/default.aspx

tempus fugit disse...

O que lamento é muitos opiniadores terem acordado tarde, muito tarde. Enquanto a ministra foi espezinhando os professores, primeiro com palavras, depois com um ECD imposto a martelo, quem se atrevia a antecipar o problema que se avizinhava era professor, ou então tido como oposição à maioria.
Começam, alguns, finalmente acordar para a realidade, olvidando porém que aquando da frase "Perdi os professores mas ganhei a população" muitos eram a população.

Alien8 disse...

Rosalina,

Assim é, nem mais nem menos. Triste. Lamentável. Já fui professor. Sei como elas doem. Sinto ainda hoje as ofensas (actuais) aos professores (em geral, como "classe") como se me fossem dirigidas.

Beijos.

Teresa Durães disse...

A minha família foram/são professores. Tudo me choca.