domingo, 7 de janeiro de 2007

nota final...
Interrogação
Nhate
olhares de séculos...




(tela: Young man at his window, de Gustave Caillebotte //
foto: Room with a fantastic view, de Fado Alexandrino)

NÃO SE DEVIA DIZER, MAS...

“Este é o primeiro teste de qualificação do Campeonato Nacional de Língua Portuguesa. Os concorrentes com menos de 15 anos deverão responder até à pergunta n.º 5 (inclusivé). Os concorrentes com idades compreendidas entre os 15 e os 18 anos deverão responder até à pergunta n.º 10 (inclusivé).”
In 1º Teste do Campeonato Nacional da Língua Portuguesa

Começa a ser, de facto, prática comum ouvir dizer o advérbio em destaque como se fora uma palavra aguda. E claro que os falantes ao registarem na escrita o que dizem, confirmam essa acentuação, assinalando a última sílaba com um acento agudo: inclusivé.
Estaremos perante outra “gralha” frequente no uso da nossa língua...
A palavra em causa – inclusive – é grave ( a sílaba tónica é a penúltima), logo estará errado escrevê-la / dizê-la como aparece em epígrafe.
A Tradição Oral
Lá fora está frio. Apetece estar em casa. A lareira acesa, as torradas, o chá e...uma história. Mas não apetece ler, até porque só deixamos acesas as luzes da lareira. Era preciso alguém que nos contasse uma história...
Hoje não vamos falar de ninguém em particular. Fazemos, então, homenagem àquele conjunto de textos que foi passando de geração em geração muitas vezes pela boca dos avós.
Desde sempre que o homem conta histórias. A narrativa é universal e exprime-se de muitas maneiras: pela linguagem oral e escrita, pela imagem e gestos e pela mistura destes processos. Roland Barthes escreve: (A narrativa) “está presente no mito, na lenda, na fábula, no conto, na novela, na epopeia, na história, na tragédia, no drama, na comédia, na pantomina, no quadro pintado, no vitral, no cinema, nos filmes cómicos, nos faits-divers, na conversação. Sob estas formas quase infinitas, a narrativa está presente em todos os tempos, em todos os lugares, em todas as sociedades; a narrativa começa a história da humanidade; não há, nunca houve em nenhum lugar, um povo sem narrativa; todas as classes, todos os grupos humanos têm as suas narrativas.”
E mesmo antes da escrita se contavam histórias. Aliás, essa era a única via de transmissão dos valores culturais. É todo um universo político, social, familiar que povoa os textos da tradição oral, exibindo os conflitos e os fantasmas que os provocam. Os ouvintes (ou leitores) deste tipo de textos revêem os seus problemas nos problemas das personagens. Esses textos são também portadores das normas sociais em vigor. Segundo as normas das sociedades mais antigas, tudo se organiza em dois pólos antagónicos: o Bem e o Mal, Deus e o Diabo. Ao ouvirem as histórias onde o Bem luta com o Mal e vence, os ouvintes ganham ânimo para as agruras da sua vida. Em muitos desses textos está a explicação dos mistérios da vida, das preocupações humanas. A sua audição ou leitura ajuda-nos, muitas vezes, a perceber o dia-a-dia.
Deixamos, para meditar, um texto de Hesíodo, poeta da Antiguidade Clássica:

O mito de Pandora

Dantes vivia sobre a terra a raça humana,
livre da desgraça e do penoso trabalho,
e das doenças horríveis, que trazem a morte aos homens.
Mas, a mulher, com as suas mãos, ergueu a grande tampa da vasilha
e dispersou-os, preparando à humanidade funestos cuidados.
Dentro da vasilha, na morada indestrutível,
abaixo do rebordo, ficou apenas a Esperança. Essa
não se evolou. Antes, já ela tornara a colocar a tampa,
por desígnios de Zeus detentor da égide, que amontoava as nuvens.
Mas tristezas aos centos erram entre os homens.
Cheia está a terra de desgraças, cheias os mares.
As doenças, umas de dia, outras de noite,
visitam à vontade os homens, trazendo aos mortais
o mal, em silêncio, pois Zeus prudente lhes retirou a voz.
E assim não há maneira de evitar os desígnios de Zeus.

(Os Trabalhos e dos Dias, 90 – 105)
as portas?
- fechadas.
as janelas?
- presas.
a alma?
- leve.

sábado, 6 de janeiro de 2007

Cai a noite e fico só
Aqui sentado a escrever
já não sei por onde vou
talvez,
venha um dia a saber



Vem dizer, vem contar, saber
E comigo ficarás
Para sempre aqui

Amanhã tudo mudou
Voltei a ver-te
como és
Já não sei porque acabou
A noite, aquela que
nos fez
Vem dizer, vem contar, saber
E comigo
ficarás
Para sempre
Se o amanhã vier
Talvez
me vá esconder
E quando a noite quiser
Volto a aparecer

Se o amanhã vier
Talvez
me vá esconder
E quando a noite quiser
Volto a aparecer

Vem dizer, vem contar, saber
E comigo ficarás
Para sempre
Se o amanhã vier
Talvez me esconder
E quando a noite quiser
Volto a aparecer
Se o amanhã vier
Talvez me esconder
E quando a noite quiser
Volto a aparecer
.
.
(letra: amanhã, polo norte //
imagens: Carlos Terrana)

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

nota final...




preenchi de eco
o espaço negado
a tua voz
em noites sós
seja o segredo afastamento
das agitações




Teresa Durães
fim-de-semana...
.
.
(foto: woman taking a bubble bath,
de Deepak Buddhiraja
/ India Picture / Corbis)

há sorrisos contagiantes. porque são assim, apenas, sorrisos.
.
.
(foto: rue de Perron, de Rui alves)

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

nota final...
construction
Sophie Dumont

e parou o tempo. as pedras calaram os passos. as portas não chegaram a libertar a vida. as janelas esconderam os sorrisos. parou. tudo parou. o tempo parou.
e quem quis passar por ali teve de gritar. gritar!
...e o grito, sem se ouvir, ficou mudo, porque as palavras nunca moraram ali.
naquela passagem apenas o cinzento de momentos antigos. os clamores do heróis. a ousadia. misto de memórias, paixões.
.
.
.
..
(foto: viseu, cidade museu, de Parrot )
Langdon sorriu.- Sophie, todas as fés do mundo se baseiam em invenções. É essa a definição de fé: aceitação daquilo que imaginamos ser verdade, daquilo que não podemos provar. Todas as religiões descrevem Deus através de matéforas, de alegorias, de exageros, desde os antigos Egípcios até às catequistas dos nossos dias. As metáforas são uma maneira de ajudar as nossas mentes a processar o improcessável. Os problemas surgem quando começamos a acreditar literalmente nas nossas próprias metáforas.
Dan Brown

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

ora...deixem cá ver...
(foto: Encanto, de Karina)
era só um miúdo

na minha terra havia um homem que não tinha um dos olhos. por isso toda a gente o tratava por zarolho. toda a gente, não. os adultos só o faziam quando ele não estava presente e, mesmo assim, só aqueles que por um motivo ou outro não gostassem dele.
eu e os meus colegas da escola costumávamos esperar que ele chegasse de autocarro para depois o perseguirmos. nessa perseguição íamos sussurrando: z, z, z, zar, zaro, zarolho... e depois desatávamos a correr, porque ele, danado, punha-se a atirar-nos pedras e a dizer que um dia se havia de vingar. eu, do grupo, era aquele que dava menos importância ao homem. achava piada à atitude dele: era tão grande e agia como uma criança. no entanto, os meus colegas, todos os dias, inventavam alguma história nova para arreliar o pobre do homem...
a pior de todas foi quando eles decidiram que o filho do tal homem também devia ser gozado. eu ainda tentei fazê-los mudar de ideias, mas eles nem me quiseram ouvir.
e foi assim que tudo se passou: no dia de uma semana qualquer, quando o miúdo ia para casa sozinho, resolveram acompanhá-lo. éramos quatro (acabei por entrar na “brincadeira” já que fazia parte do grupo...). um ultrapassou-o, dois ladearam-no e eu caminhava atrás. depois de cinco minutos, em silêncio, apressando o passo, quando ele o fazia e desacelerando-o, quando desesperadamente tentava escapar, o pobre rapaz foi ouvindo, enquanto aguentou, as nossas ‘bocas’.
a certa altura, não suportando mais, parou, agarrou em pedras e começou a atirá-las. como éramos quatro a sua tentativa desesperada de defesa não deu resultado: agarramos-lhe imediatamente nas mãos. e os meus colegas empurraram-no, começando-lhe a bater. fiquei paralisado. gritei. ninguém me ouvia. deitei-me, então, sobre o miúdo. e só assim os outros pararam. olharam para mim com ódio e chamaram-me cobarde. não me importei nada. estava preocupado com aquele ser tão pequeno e que a chorar tremia nos meus braços. peguei nele ao colo e levei-o para sua casa.
dias mais tarde, e preocupado porque não o tornara a ver na escola, fui lá a casa. quando cheguei estava tudo em silêncio. as pessoas estavam vestidas de preto. avancei por aquela pequena multidão e no fim dela estava uma caixa e dentro uma criança: o filho daquele homem tão grande que, àquele canto sentado a chorar, parecia tão pequeno...
quis saber como tinha sido...disseram-me que se tinha matado.
fiquei horrorizado. naquele momento odiei-me a mim próprio. tive vontade de matar os meus colegas.
agora, e passados que são tantos anos, tenho pena desses colegas... nunca mais fui capaz de olhar para eles. de mim continuo com ódio.
estou sozinho na vida. naquele dia aprendi que jamais poderia fazer alguém feliz!

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

nota final...

After
Lilya Corneli
Cultura, eloquência e ética


Foi a nossa cidade que revelou a cultura, que descobriu e organizou todas estas vantagens, que nos ensinou a agir e dulcificou as nossas relações, e que distinguiu entre as desgraças provocadas pela ignorância e pela necessidade, e ensinou a precavermo-nos contra aquelas e a suportar estas corajosamente. Foi ela que honrou a eloquência, que todos desejam, e cujos possuidores são invejados. Ela tem consciência de que somos, de todos os animais, os únicos que a natureza dotou deste privilégio e que, por termos esta superioridade, diferimos em tudo o mais; via que nas demais actividades a sorte é tão atrabiliária que é frequente que os inteligentes sejam mal sucedidos e os tolos prosperem, mas que os discursos belos e artísticos não são apanágio das pessoas inferiores, mas obra de uma alma que pensa bem; que os sábios e os que parecem ignorantes diferem uns dos outros sobretudo nisto, e ainda que os que foram criados desde início como homens livres não se conhecem pela coragem, riqueza ou qualidades dessa espécie, mas se distinguem sobretudo pela maneira de falar, e é este o sinal mais seguro da educação de cada um de nós, e aqueles que sabem usar da palavra, não só são poderosos no seu país, como honrados nos outros.
Isócrates, séc. V-IV a.C
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para quando uma reflexão séria sobre os desígnios da nossa educação...
não me canso de ler nos clássicos os princípios. e eles já têm tantos séculos de vida. porquê inventar aquilo que outros já disciplinaram há tanto tempo?!
por onde andam os homens honrados da nossa cidade? aqueles que sabem usar a palavra?! os eloquentes...
atrabiliária....adjectivo em total desuso, mas que afinal descreve tão bem aquilo que nos rodeia:
atrabiliário, a. adj. 1. Desus. Med. Que é relativo à bílis negra, à atrabílis. Humor atrabiliário. 2. P. Us. Que sofre de melancolia, de tristeza profunda; que tem atrabílis. = MELANCÓLICO, TRISTE. 3. Que tem mau humor, que é colérico, irascível. (...) 4. Que desrespeita normas preceitos. = arbitrário.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

nota final...

...
Jill Greenberg

os afazeres do primeiro dia do ano...







ócio...

o google, hoje, es eurico!

passam as horas, os minutos. passam até os dias. e a vida esvai-se sem que o tempo que eu procuro fique. não espero que tudo seja resolvido agora, neste momento, mas que houvesse indícios...as esperas inúteis assustam-me como o vento, quando, ferozmente, fustiga as árvores da minha floresta imaginada. a praia é o paraíso daqueles que um dia quiseram ser os amantes da vida. daqueles que não queriam ficar sempre, aqui, à espera.
mas tudo se espera. até o nascer do dia, de manhã...e a noite, às vezes, custa tanto a passar: a lua é lenta e as estrelas teimam em brilhar.
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De noite, amada, prende o teu coração ao meu
e que no sono eles dissipem as trevas
como um duplo tambor combatendo no bosque
contra o espesso muro das folhas molhadas.
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Nocturna travessia, brasa negra do sono
interceptando o fio das uvas terrestres
com a pontualidade dum comboio desvairado
que sombra e pedras frias sem cessar arrastasse.
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Por isso, amor, prende-me ao movimento puro,
à tenacidade que em teu peito bate
com as asas dum cisne submerso,
.
para que às perguntas estreladas do céu
responda o nosso sono com uma única chave,
com uma única porta fechada pela sombra.
in Cem Poemas de Amor, Pablo Neruda