terça-feira, 16 de janeiro de 2007

«Felix qui potuit...»


Feliz o que pôde conhecer as causas das coisas,
e aos medos todos, ao inexorável destino,
ao estrépito do Aqueronte avaro calcou os pés!


Virgílio, Geórgicas (séc. I a.C.)
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a ousadia dos felizes.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

nota final...
Intermission
Andrei Protsouk

NÃO SE DEVIA DIZER, MAS...

Hoje não vamos falar do que se diz de pior, mas de uma norma de escrita que cada vez se usa menos e que poderá ter repercussões a nível da oralidade.

Falemos, então, do PARÁGRAFO.

Para quem só comece agora a ler e leia apenas o que a imprensa nos dá, ficará sem saber o que significa aquela “entrada no texto que se distingue das margens com que a página é formatada”. E isto acontece porque, regra geral, na imprensa já não se usa.

A questão que se coloca é saber se se deve continuar a insistir no uso do parágrafo. E se tal ausência poderá prejudicar a comunicação oral.

Para ambas as questões, achamos que a resposta tem de ser afirmativa.

Um parágrafo é “uma unidade no texto (com ou mais períodos) no qual se desenvolve uma ideia (central); podendo ter outras (secundárias) associadas.” Ora se é através da leitura que melhor se aprende a pensar, saber, falar, faz todo o sentido que se continue a assinalar a tal entrada que identifica, na escrita, o parágrafo. E, assim, ao contrário de se considerar uma regra supérflua, o respeito por esta norma da escrita, facilitaria o desenvolvimento do próprio raciocínio.

Vamos, então, manter a tradição...
Ou, então, alteremos a regra e passemos a assinalar o parágrafo de outra forma, como já acontece em muitos textos, fazendo um espaço maior entre cada unidade de texto - parágrafo. Mas que se estabeleça a regra. Seria importante...





porque é aqui, no meu silêncio, quando os outros querem que fale, que as minhas palavras ganham a sua alma.
porque a minha liberdade de expressão tem as cores de todos os dias.
é breve. nasce e morre com o sol.
não grita, mas ouve-se. é silenciosa, como silenciosas são as flores, as nuvens, a água, o céu.



(fotos de Marko Petric)
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Assim, pouco a pouco
escolhi, o presente Silêncio
Silêncio, tão pouco querido
oh, derradeiro momento
Silêncio, Momento, Silêncio

Pedro Ayres Magalhães

domingo, 14 de janeiro de 2007

nota final...
Binette
Nana Sousa Dias
olhares de séculos...





(foto: do filme Eyes Wide Shut //
tela: Contemplation, de Pino)



insólito e cativante contador de histórias

No 8º ano de escolaridade, um dos textos sugeridos pelos programas para leitura nas aulas de Língua Portuguesa é o conto A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho de Mário de Carvalho.
É daqueles textos que muitas vezes se evita nas Planificações por ser, de acordo com uma opinião generalizada, difícil de perceber por parte dos alunos…

Não será talvez bem assim… Aliás, há quem, mesmo não fazendo parte da Planificação do Grupo Disciplinar, leia o texto (recreativamente) aos alunos, tendo resultados bastante agradáveis.

A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho é daqueles textos que prende a atenção e motiva para leitura. Sente-se que houve uma grande vontade de contar. E esse é, afinal, o segredo da arte de contar.

“Mas o que é afinal a arte de contar? É uma vontade de contar. Não tanto da parte do público que deseja ler histórias, mas da parte do autor que tem vontade de contar essas histórias, de contar o que quiser e como quiser. E assim o impulso ficcional volta ao início, mas transformado pelos debates e mudanças no género romanesco. Sem esquecer evidentemente outras formas de ficção como conto, porque o conto é a forma privilegiada de contar histórias.” Desta maneira nos fala Pedro Mexia a propósito de Mário de Carvalho e da sua obra. E diz-nos ainda que este autor é um dos “que mais exemplarmente tem representado essa vontade de narrar.”

Só a título de exemplo, para aqueles que ainda não lerem Mário de Carvalho, aqui fica o início do conto A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho:

O grande Homero às vezes dormitava, garante Horácio. Outros poetas dão-se a uma sesta, de vez em quando, com prejuízo da toada e da eloquência do discurso. Mas, infelizmente, não são apenas os poetas que se deixam dormitar. Os deuses também.

Este parágrafo, bem lido(!), transporta, quase em simultâneo, os leitores para o mundo da ficção, onde o passado se vai misturar com o presente, criando nos jovens leitores, principalmente, grande expectativa.
Aliás este recurso é muito utilizado por Mário de Carvalho. Muitas das suas obras recuam bastante no tempo histórico. Facto que o autor justifica da seguinte forma:
Quatro mil, cinco mil anos de história (que se conta a partir dos primeiros registos escritos) é um período muito curto da humanidade. O homem contemporâneo, o medieval ou o romano são o mesmo homem. Ainda não se inventou aquilo que se chamava o «homem novo» (ou a invenção deu mau resultado). As pessoas ficam muito admiradas quando eu desconfio das utopias. Mas nas coisas do mundo real sou muito prático e muito concreto. Tal como na política. No mundo da ficção, aí sim, cabem todas as utopias e todos os delírios.”
Este homem, a quem Urbano Tavares apelidou de “insólito e cativante contador de histórias”, é responsável por uma obra variada quer em temas, géneros ou tempos históricos. O seu registo é frequentemente irónico, mesmo humorístico, com várias incursões pelo domínio do fantástico. Além de romancista, contista e dramaturgo é ainda autor de diversos guiões, diálogos e adaptações para televisão e de um guião para cinema. São mais de vinte anos de carreira literária, com registo de, pelo menos sete prémios, onde apenas falta a expressão lírica. Mas também esse dado não é fruto do acaso… “Um autor, de quem me não recordo o nome agora, dizia não fazer poesia porque «não gostava de falar de si». Eu não me atrevo a escrever poesia; é uma coisa tão elevada e distante. A minha área é a da narrativa e das histórias.

Que mais se pode dizer neste espaço sobre este perfil, afinal tão simples e humano? Acrescentar, talvez, alguns dados biográficos.
Mário de Carvalho nasceu em Lisboa, a 25 de Setembro de 1944. É nesta cidade que tem vivido e foi nela que tirou o curso (Direito). Exerceu advocacia e mais recentemente deu aulas de “escrita de argumento” na Escola Superior de Teatro e Cinema.
E é com palavras suas a propósito dos workshops de “escrita criativa que terminamos a referência literária de hoje:
É como o «Melhoral» [os workshops de “escrita criativa], não faz bem nem faz mal…Tudo o que sirva para interessar as pessoas pela leitura, seja bem-vindo.”

sábado, 13 de janeiro de 2007

nota final...
...
Tante RinE

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

nota final...
Moonlight
Simon Garden
voam pássaros lá fora que eu não conheço, que nunca vi.
os sons que espalham são estranhos
porque comedidos.
excessivamente humanos.
gritos prováveis de quem anda em fuga.
que tal olhar para o fim-de-semana assim?...

(Looking up..., de Alexander Pasternak)


quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

À CONVERSA COM A ESCRITA DOS OUTROS...hoje, com a de Miguel Sousa Tavares.

No Expresso de Domingo passado, 6 de Janeiro de 2007, na página 7, Primeiro Caderno, consta no topo da página um artigo de opinião cuja leitura passarei a sugerir, provavelmente, aos alunos do 9º Ano, como exemplo do que é dominar bem a técnica da escrita, usando informação errada. Numa palavra: manipular, neste caso, a opinião pública.
Afirma-se, logo no início do artigo, o seguinte: "Pouco antes do Natal, foi anunciado que o Sindicato dos Professores tinha vencido duas acções contra o Ministério da Educação em Tribunal Administrativo." De facto, houve dois professores que viram as suas acções sair vencedoras, portanto, não foi o Sindicato de Professores (até porque não existe um Sindicato de Professores, existem vários...). Parece, também, que não foi o Tribunal Administrativo. As situações reportam-se a professores provenientes de locais diferentes. Logo deveria ter-se escrito os Tribunais. A referência ao Natal e não ao mês de Dezembro é, no mínimo, festiva...
Faz-se referência, ainda nesse parágrafo inicial, ao facto das "célebres aulas de substituição" serem muito contestadas pelos professores. É incontornável que as aulas de substituição têm sido muito contestadas pelos professores, mas não pelas razões que são expostas.
Informar, antes, que sou professora desde Outubro de 1989, isto é, há mais de 17 anos.
Não contesto as aulas de substituição. E a provar que é verdade, declaro que, sendo chamada pelos funcionários para ir substituir um professor que tenha faltado, vou, sem levantar qualquer questão. Nunca manifestei formalmente a minha indignação por tal facto. E porquê? É simples, o horário que me foi atribuído contempla duas aulas de Acompanhamento, ou seja, tenho que estar presente na Sala de Professores e, caso seja chamada, substituir o professor que falte, logo leccionar, vulgo, dar aulas. Eu cumpro as minhas obrigações.
Acontece que, além dessas duas horas, eu tenho outras 22 horas de aulas. Acontece, também, que está definido que o meu horário, de acordo com a idade, e apesar dos já 17 anos de Serviço, não seja contemplado com qualquer hora de redução. Assim, além das 22 horas lectivas, há semanas em que dou 23 ou 24 aulas. Consequentemente, e sempre que isso aconteça, apresento nos Serviços Administrativos, um Requerimento a solicitar o pagamento de horas extraordinárias.
Dirão os mais distraídos: mas o que são 24 horas de trabalho semanal. Posta a questão assim, que é como o autor do artigo a coloca, as suas palavras estariam correctas. Acontece, de novo, que está definido por lei que o horário do professor (3º Ciclo) deve contemplar: componente lectiva - aulas (22 horas) e componente não lectiva - trabalho individual / reuniões / Trabalho de Estabelecimento / Outras Actividades.
Tornando ainda mais clara a informação e transcrevendo o que consta no meu horário (semanal):
Componente lectiva (aulas) - 22h
Componente não lectiva
- reuniões (2h);
- trabalho individual (9h);
- trabalho de estabelecimento (2h);
- outras actividades (2h).
Portanto, fazendo as contas, perfaz um total de 35 horas. O legal. No entanto, sempre que, e porque na minha escola, como outras actividades me foram atribuídas duas horas de acompanhamento, sou chamada para substituir outro professor passo a ter mais duas horas lectivas, perfazendo um total semanal de 24 horas lectivas o que se traduz em 2 horas extraordinárias, dado que o meu horário só deve contemplar 22 horas lectivas que já tenho.
É óbvio que outras actividades me deveriam ter sido atribuídas. Má gestão. Ilegalidade. O que é certo é que, nessas circunstâncias, eu tenho direito a ser paga pelo serviço extraordinário, e o Estado tem a obrigação de mo pagar.
Assim, parece-me que no artigo de opinião há recolha de informação errada, ou tratamento inadequado da informação recolhida, ou intencionalidade de difamação. O que se apresenta não é verdade. Não está correcto.
Acresce dizer que a existência de aulas de substituição não foi uma medida desta ministra. Já está contemplada no anterior Estatudo da Carreira Docente. O que a ministra, os secretários de Estado, o Governo e muitos Órgãos de Gestão têm feito é uma errada interpretação da lei. O que os professores têm feito é exigir a legalidade.
Achar que o nível de desempenho dos alunos se pode medir por aquilo a que o autor do texto designa como "absentismo dos professores" revela um desconhecimento total daquilo que é avaliar e, principalmente, daquilo que tem sido aturar as successivas políticas educacionais dos vários governos.
Quando se diz que "Os sindicatos têm contestado a utilidade disto [referindo-se às aulas de substituição], com o argumento de que um professor não está preparado para leccionar fora da sua especialidade, nem lhe cabe «tomar conta de meninos», mas apenas ensiná-los", é estar a extrapolar aquilo que tem sido dito. Julgo que justifiquei em cima o quão falaciosa é esse tipo de afirmação. Até porque o que é dito a seguir é tão ofensivo e incoerente que o melhor é mesmo não perder tempo com a assunto. Uma vez que fazendo-o teria que ser profundamente crítica e revelar o que o conteúdo transmite. Acção que acho prudente não fazer, uma vez que seria pouco lisonjeadora.
Além da situação concreta do meu horário, poderia referir a situação de tantos e tantos professores que por idade e tempo de serviço têm reduzida a sua componente lectiva, facto que está previsto na lei, e que neste momento estão a dar aulas porque têm de dar aulas de substituição. É coerente esta situação?! Faz sentido?!...Não me parece que faça, isto, claro, para quem quiser olhar para a situação com olhos de ver, como se costuma dizer... De repente, todos sabem o que é ser professor, quais os direitos e os deveres dos mesmos. Todos são opinadores.
Hilariante é o parágrafo seguinte onde se apresenta a verdadeira finalidade das aulas de substituição, a saber: "...consciencializar os absentistas habituais de que as suas faltas causam danos e incómodos concretos...". Ora, o jocoso da situação é que, na profissão de professor, tal como nas demais, os que são habituais, continuam a sê-lo. Passado ano meio desde que a questão das aulas de substituição iniciou, nas escolas, os professores que faltavam continuam a faltar e os que não o faziam, continuam a agir em confirmada. Logo não há diferenças a não ser no desgaste e no aspecto financeiro, dado que, em muitos casos, por má gestão dos órgãos competentes, essas aulas traduzem-se em horas extaordinárias.
Nos parágrafos seguintes, o autor do artigo ataca a outra actividade profissional envolvida na situação: os juízes. Como se trata de matéria que não domino, não me pronunciarei. Apesar disso e antes de terminar, uma nota apenas.
O Presidente da República di-lo muitas vezes, quando os jornalistas o interpelam no sentido de comentar as decisões dos Tribunais: não comento. Isto é, o Presidente da República respeita as decisões tomadas em tribunal por juízes.
Miguel Sousa Tavares, quando se refere às mesmas decisões escreve, e passo a citar: "Estas sentenças são aberrantes..."
Perante o exposto, só me resta colocar uma questão: Se quem dá aulas, é professor e quem faz aplicar a lei é juiz, o que será quem escreva sem saber do que escreve?
Sabendo que o diálogo é o instrumento-chave de toda a comunicação e que a própria comunicação é a necessidade dominante do ser humano social por excelência, só melhorando a nossa capacidade e fluidez de diálogo perguntando, ouvindo com tolerância, aumentamos a nossa capacidade de comunicar.
Eduardo Criado

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

a vontade de rir, às vezes, anda perdida...




(foto de: Ksiezyc)
o mundo das fadas e dos bruxos

esta história podia começar assim: “era uma vez…”podia, mas não começa. e não começa porque esta história é real. é verdadeira.
passou-se há muitos anos atrás, quase no mundo dos sonhos, num país distante, muito distante. mas, ainda assim, aconteceu...
ora bem, naquele país era hábito a fada das fadas fazer grupos de trabalho. e todos os anos, no dia 13 do 13º mês, janebro, pelas 13h00, ela informava as outras fadas e bruxinhos dos seus grupos. naquele ano, que, por acaso, também era o 13º da vida daquele país, a fada das fadas fez um grupo muito giro: juntou 6 aprendizes (4 fadas e 2 bruxos) que já se conheciam há muito tempo com 3 fadas do outro mundo e dois bruxos extraterrestres.
no total, eram 11 membros. e, se, no princípio, era muito difícil trabalhar com eles, porque estavam sempre a falar, fazer barulho, fazer perguntas e a faltar às sessões de aprendizagem para se ser fada e bruxo - o mais grave de tudo…-, no final, as sessões corriam às mil maravilhas. os 11 aprendizes já não falavam, não faziam barulho, nem perguntas e deixaram, mesmo de faltar às sessões. eles eram de tal maneira excelentes que as fadas-mestres e os bruxos-mestres começaram a gostar muito deles, tendo decidido eleger aquele grupo de aprendizes como um dos melhores de sempre. Todos ficaram muito felizes.
ora, como todos os meninos e meninas sabem, as fadas e os bruxos têm sempre uma função. naquele grupo todos participavam e por isso é que conseguiram ter sucesso:
a fada andriovochi tinha de regar todos os dias as plantas que cresciam no alto das cabeças das fadas e bruxas aprendizes; a fada brunaiovichi querioti tinha de cortar as ervas daninhas dessas plantas, todos os dias; a bruniovichi gomighi tinha de controlar as fadas andriovochi maroti e bruniovichi querioti; o carliovichi simiovichi tinha de contar todos os dias uma anedota; a carliovichi barriovichi tinha de ralhar diariamente com o carliovichi simiovichi por causa da anedota, o celsovichi ferreirovichi tinha de ler um poema; a filipiovichi joãovichi e o hugovichi mauriovichi tinham de jogar ao monopolovichi todas as tardes; a marlinovichi polovichi tinha de controlar o jogo de monopolovichi. por fim, o pedrovichi e a sandriovichi tinham de fazer todos os dias um bolo de chocolate.
afinal, é tão simples ser fada ou bruxo...

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

A transmissão literária, para poder efectuar-se de modo perdurável, pressupõe, em primeiro lugar o conhecimento e o uso da escrita. Esta existiu na Grécia desde tempos muito mais recuados do que ainda há poucos anos se supunha. Com efeito, desde que, em 1953, o arquitecto inglês M. Ventris, coadjuvado pelo filólogo J. Chadwick, decifrou o chamado Linear B, sabe-se que já no século XV a.C. os Micénios se serviam de um silabário para fazer os seus registos, silabário esse que deriva do Linear A, ainda não decifrado, que usavam os Minóicos. Precisamente porque a língua empregada no Linear B era já grego, foi possível estabelecer esta equação, doravante fundamental: que os Micénicos eram Gregos.
Mas este complicado processo de escrita, que usa de um sinal diferente para cada sílaba (e não de um para cada som, como o alfabeto) desaparece por completo da memória dos homens com a chamada invasão dórica, em 1100 a.C., e assim fica no olvido até que a enxada dos arqueólogos o faz reaparecer, em tempos modernos.
O certo é que os Gregos que vieram depois se sentiram na necessidade de importar um sistema de escrita da Fenícia, o alfabeto, que adaptaram como puderam à sua fonética. É este alfabeto, aliás, com diversas variantes locais, que mais tarde há-de servir de modelo ao latino, ao gótico e ao cirílico e, deste modo, está na base de todos os processos de escrita em uso na Europa actual.
Quando se fez essa importação não sabemos. Talvez fosse pelos meados do séc. VIII a. C. . No estado a actual da Ciência, dá-se como sendo de c. 725 a.C. a mais antiga inscrição encontrada.
Mas o facto de existir a escrita, e de ela ser usada para consignar acontecimentos dignos de registo, não quer dizer que fosse empregada para fixar as obras literárias. E, de facto, há provas bastantes de que a poesia primitiva era exclusivamente oral. Supõe-se mesmo que teria sido com o aparecimento da prosa que se constituiu o hábito de compor livros, o que teria ocorrido pelo séc. VI a.C., com a obra do filósofo Anaximandro. De outro filósofo posterior, Heraclito, sabemos nós que depôs o seu livro no templo de Ártemis em Éfeso, sua cidade natal, certamente para impedir que se perdesse. Também é seguro que o historiógrafo Hecateu compôs um livro. No séc. V a.C., a prática estava generalizada, e, no séc. IV, tão arraigada que, como escreveu espirituosamente o Prof. E. G. Turner, da Universidade de Londres, começa desde então a «tirania do livro». Notemos, porém, de passagem, que a tradição do ensino oral, praticado ainda, ao que parece, pelo mais antigo filosofo, Tales de Mileto, perdura noutros grandes nomes, como Pitágoras e Sócrates, e Platão proclama a superioridade deste sobre o escrito.
Maria Helena da Rocha Pereira, 1979
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apesar do excelência da escrita a poesia deve ser sempre dita...

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

nota final...
Última palavra
Pílar Martin

" Um relógio para Rosalina" - subscrição pública

o relógio que foi adquirido!!!




de repente acordar. os olhos abertos. as mãos, ainda vazias. levantar. abrir as janelas. ligar a música. mexer no cabelo. sorrir. as mãos já a ficar cheias. de movimento. energia. cor. e misturar as minhas mãos com outras mãos. pedir lembranças. largar beijos. tocar.




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Mas esqueci que as tuas mãos alegravam

as raízes, regando rosas enredadas,

até que as tuas impressões digitais floriram

na absoluta paz da natureza.

.

Como teus animais de estimação, alivião e a água

acompanham-te, mordendo e lambendo a terra,

e é assim que, trabalhando, geras

fecundidade, fogosa frescura de cravos.

.

Amor e reverência de abelhas peço para as tuas mãos

que na terra confundem sua estirpe transparente,

e até em meu coração abrem a sua agricultura,

.

de tal modo que sou como uma pedra queimada

que de repente, contigo, canta, porque recebe

a água dos bosques por tua voz conduzida.

Pablo Neruda