quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

o mundo das fadas e dos bruxos

esta história podia começar assim: “era uma vez…”podia, mas não começa. e não começa porque esta história é real. é verdadeira.
passou-se há muitos anos atrás, quase no mundo dos sonhos, num país distante, muito distante. mas, ainda assim, aconteceu...
ora bem, naquele país era hábito a fada das fadas fazer grupos de trabalho. e todos os anos, no dia 13 do 13º mês, janebro, pelas 13h00, ela informava as outras fadas e bruxinhos dos seus grupos. naquele ano, que, por acaso, também era o 13º da vida daquele país, a fada das fadas fez um grupo muito giro: juntou 6 aprendizes (4 fadas e 2 bruxos) que já se conheciam há muito tempo com 3 fadas do outro mundo e dois bruxos extraterrestres.
no total, eram 11 membros. e, se, no princípio, era muito difícil trabalhar com eles, porque estavam sempre a falar, fazer barulho, fazer perguntas e a faltar às sessões de aprendizagem para se ser fada e bruxo - o mais grave de tudo…-, no final, as sessões corriam às mil maravilhas. os 11 aprendizes já não falavam, não faziam barulho, nem perguntas e deixaram, mesmo de faltar às sessões. eles eram de tal maneira excelentes que as fadas-mestres e os bruxos-mestres começaram a gostar muito deles, tendo decidido eleger aquele grupo de aprendizes como um dos melhores de sempre. Todos ficaram muito felizes.
ora, como todos os meninos e meninas sabem, as fadas e os bruxos têm sempre uma função. naquele grupo todos participavam e por isso é que conseguiram ter sucesso:
a fada andriovochi tinha de regar todos os dias as plantas que cresciam no alto das cabeças das fadas e bruxas aprendizes; a fada brunaiovichi querioti tinha de cortar as ervas daninhas dessas plantas, todos os dias; a bruniovichi gomighi tinha de controlar as fadas andriovochi maroti e bruniovichi querioti; o carliovichi simiovichi tinha de contar todos os dias uma anedota; a carliovichi barriovichi tinha de ralhar diariamente com o carliovichi simiovichi por causa da anedota, o celsovichi ferreirovichi tinha de ler um poema; a filipiovichi joãovichi e o hugovichi mauriovichi tinham de jogar ao monopolovichi todas as tardes; a marlinovichi polovichi tinha de controlar o jogo de monopolovichi. por fim, o pedrovichi e a sandriovichi tinham de fazer todos os dias um bolo de chocolate.
afinal, é tão simples ser fada ou bruxo...

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

A transmissão literária, para poder efectuar-se de modo perdurável, pressupõe, em primeiro lugar o conhecimento e o uso da escrita. Esta existiu na Grécia desde tempos muito mais recuados do que ainda há poucos anos se supunha. Com efeito, desde que, em 1953, o arquitecto inglês M. Ventris, coadjuvado pelo filólogo J. Chadwick, decifrou o chamado Linear B, sabe-se que já no século XV a.C. os Micénios se serviam de um silabário para fazer os seus registos, silabário esse que deriva do Linear A, ainda não decifrado, que usavam os Minóicos. Precisamente porque a língua empregada no Linear B era já grego, foi possível estabelecer esta equação, doravante fundamental: que os Micénicos eram Gregos.
Mas este complicado processo de escrita, que usa de um sinal diferente para cada sílaba (e não de um para cada som, como o alfabeto) desaparece por completo da memória dos homens com a chamada invasão dórica, em 1100 a.C., e assim fica no olvido até que a enxada dos arqueólogos o faz reaparecer, em tempos modernos.
O certo é que os Gregos que vieram depois se sentiram na necessidade de importar um sistema de escrita da Fenícia, o alfabeto, que adaptaram como puderam à sua fonética. É este alfabeto, aliás, com diversas variantes locais, que mais tarde há-de servir de modelo ao latino, ao gótico e ao cirílico e, deste modo, está na base de todos os processos de escrita em uso na Europa actual.
Quando se fez essa importação não sabemos. Talvez fosse pelos meados do séc. VIII a. C. . No estado a actual da Ciência, dá-se como sendo de c. 725 a.C. a mais antiga inscrição encontrada.
Mas o facto de existir a escrita, e de ela ser usada para consignar acontecimentos dignos de registo, não quer dizer que fosse empregada para fixar as obras literárias. E, de facto, há provas bastantes de que a poesia primitiva era exclusivamente oral. Supõe-se mesmo que teria sido com o aparecimento da prosa que se constituiu o hábito de compor livros, o que teria ocorrido pelo séc. VI a.C., com a obra do filósofo Anaximandro. De outro filósofo posterior, Heraclito, sabemos nós que depôs o seu livro no templo de Ártemis em Éfeso, sua cidade natal, certamente para impedir que se perdesse. Também é seguro que o historiógrafo Hecateu compôs um livro. No séc. V a.C., a prática estava generalizada, e, no séc. IV, tão arraigada que, como escreveu espirituosamente o Prof. E. G. Turner, da Universidade de Londres, começa desde então a «tirania do livro». Notemos, porém, de passagem, que a tradição do ensino oral, praticado ainda, ao que parece, pelo mais antigo filosofo, Tales de Mileto, perdura noutros grandes nomes, como Pitágoras e Sócrates, e Platão proclama a superioridade deste sobre o escrito.
Maria Helena da Rocha Pereira, 1979
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apesar do excelência da escrita a poesia deve ser sempre dita...

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

nota final...
Última palavra
Pílar Martin

" Um relógio para Rosalina" - subscrição pública

o relógio que foi adquirido!!!




de repente acordar. os olhos abertos. as mãos, ainda vazias. levantar. abrir as janelas. ligar a música. mexer no cabelo. sorrir. as mãos já a ficar cheias. de movimento. energia. cor. e misturar as minhas mãos com outras mãos. pedir lembranças. largar beijos. tocar.




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Mas esqueci que as tuas mãos alegravam

as raízes, regando rosas enredadas,

até que as tuas impressões digitais floriram

na absoluta paz da natureza.

.

Como teus animais de estimação, alivião e a água

acompanham-te, mordendo e lambendo a terra,

e é assim que, trabalhando, geras

fecundidade, fogosa frescura de cravos.

.

Amor e reverência de abelhas peço para as tuas mãos

que na terra confundem sua estirpe transparente,

e até em meu coração abrem a sua agricultura,

.

de tal modo que sou como uma pedra queimada

que de repente, contigo, canta, porque recebe

a água dos bosques por tua voz conduzida.

Pablo Neruda

domingo, 7 de janeiro de 2007

nota final...
Interrogação
Nhate
olhares de séculos...




(tela: Young man at his window, de Gustave Caillebotte //
foto: Room with a fantastic view, de Fado Alexandrino)

NÃO SE DEVIA DIZER, MAS...

“Este é o primeiro teste de qualificação do Campeonato Nacional de Língua Portuguesa. Os concorrentes com menos de 15 anos deverão responder até à pergunta n.º 5 (inclusivé). Os concorrentes com idades compreendidas entre os 15 e os 18 anos deverão responder até à pergunta n.º 10 (inclusivé).”
In 1º Teste do Campeonato Nacional da Língua Portuguesa

Começa a ser, de facto, prática comum ouvir dizer o advérbio em destaque como se fora uma palavra aguda. E claro que os falantes ao registarem na escrita o que dizem, confirmam essa acentuação, assinalando a última sílaba com um acento agudo: inclusivé.
Estaremos perante outra “gralha” frequente no uso da nossa língua...
A palavra em causa – inclusive – é grave ( a sílaba tónica é a penúltima), logo estará errado escrevê-la / dizê-la como aparece em epígrafe.
A Tradição Oral
Lá fora está frio. Apetece estar em casa. A lareira acesa, as torradas, o chá e...uma história. Mas não apetece ler, até porque só deixamos acesas as luzes da lareira. Era preciso alguém que nos contasse uma história...
Hoje não vamos falar de ninguém em particular. Fazemos, então, homenagem àquele conjunto de textos que foi passando de geração em geração muitas vezes pela boca dos avós.
Desde sempre que o homem conta histórias. A narrativa é universal e exprime-se de muitas maneiras: pela linguagem oral e escrita, pela imagem e gestos e pela mistura destes processos. Roland Barthes escreve: (A narrativa) “está presente no mito, na lenda, na fábula, no conto, na novela, na epopeia, na história, na tragédia, no drama, na comédia, na pantomina, no quadro pintado, no vitral, no cinema, nos filmes cómicos, nos faits-divers, na conversação. Sob estas formas quase infinitas, a narrativa está presente em todos os tempos, em todos os lugares, em todas as sociedades; a narrativa começa a história da humanidade; não há, nunca houve em nenhum lugar, um povo sem narrativa; todas as classes, todos os grupos humanos têm as suas narrativas.”
E mesmo antes da escrita se contavam histórias. Aliás, essa era a única via de transmissão dos valores culturais. É todo um universo político, social, familiar que povoa os textos da tradição oral, exibindo os conflitos e os fantasmas que os provocam. Os ouvintes (ou leitores) deste tipo de textos revêem os seus problemas nos problemas das personagens. Esses textos são também portadores das normas sociais em vigor. Segundo as normas das sociedades mais antigas, tudo se organiza em dois pólos antagónicos: o Bem e o Mal, Deus e o Diabo. Ao ouvirem as histórias onde o Bem luta com o Mal e vence, os ouvintes ganham ânimo para as agruras da sua vida. Em muitos desses textos está a explicação dos mistérios da vida, das preocupações humanas. A sua audição ou leitura ajuda-nos, muitas vezes, a perceber o dia-a-dia.
Deixamos, para meditar, um texto de Hesíodo, poeta da Antiguidade Clássica:

O mito de Pandora

Dantes vivia sobre a terra a raça humana,
livre da desgraça e do penoso trabalho,
e das doenças horríveis, que trazem a morte aos homens.
Mas, a mulher, com as suas mãos, ergueu a grande tampa da vasilha
e dispersou-os, preparando à humanidade funestos cuidados.
Dentro da vasilha, na morada indestrutível,
abaixo do rebordo, ficou apenas a Esperança. Essa
não se evolou. Antes, já ela tornara a colocar a tampa,
por desígnios de Zeus detentor da égide, que amontoava as nuvens.
Mas tristezas aos centos erram entre os homens.
Cheia está a terra de desgraças, cheias os mares.
As doenças, umas de dia, outras de noite,
visitam à vontade os homens, trazendo aos mortais
o mal, em silêncio, pois Zeus prudente lhes retirou a voz.
E assim não há maneira de evitar os desígnios de Zeus.

(Os Trabalhos e dos Dias, 90 – 105)
as portas?
- fechadas.
as janelas?
- presas.
a alma?
- leve.

sábado, 6 de janeiro de 2007

Cai a noite e fico só
Aqui sentado a escrever
já não sei por onde vou
talvez,
venha um dia a saber



Vem dizer, vem contar, saber
E comigo ficarás
Para sempre aqui

Amanhã tudo mudou
Voltei a ver-te
como és
Já não sei porque acabou
A noite, aquela que
nos fez
Vem dizer, vem contar, saber
E comigo
ficarás
Para sempre
Se o amanhã vier
Talvez
me vá esconder
E quando a noite quiser
Volto a aparecer

Se o amanhã vier
Talvez
me vá esconder
E quando a noite quiser
Volto a aparecer

Vem dizer, vem contar, saber
E comigo ficarás
Para sempre
Se o amanhã vier
Talvez me esconder
E quando a noite quiser
Volto a aparecer
Se o amanhã vier
Talvez me esconder
E quando a noite quiser
Volto a aparecer
.
.
(letra: amanhã, polo norte //
imagens: Carlos Terrana)

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

nota final...




preenchi de eco
o espaço negado
a tua voz
em noites sós
seja o segredo afastamento
das agitações




Teresa Durães
fim-de-semana...
.
.
(foto: woman taking a bubble bath,
de Deepak Buddhiraja
/ India Picture / Corbis)

há sorrisos contagiantes. porque são assim, apenas, sorrisos.
.
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(foto: rue de Perron, de Rui alves)

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

nota final...
construction
Sophie Dumont

e parou o tempo. as pedras calaram os passos. as portas não chegaram a libertar a vida. as janelas esconderam os sorrisos. parou. tudo parou. o tempo parou.
e quem quis passar por ali teve de gritar. gritar!
...e o grito, sem se ouvir, ficou mudo, porque as palavras nunca moraram ali.
naquela passagem apenas o cinzento de momentos antigos. os clamores do heróis. a ousadia. misto de memórias, paixões.
.
.
.
..
(foto: viseu, cidade museu, de Parrot )
Langdon sorriu.- Sophie, todas as fés do mundo se baseiam em invenções. É essa a definição de fé: aceitação daquilo que imaginamos ser verdade, daquilo que não podemos provar. Todas as religiões descrevem Deus através de matéforas, de alegorias, de exageros, desde os antigos Egípcios até às catequistas dos nossos dias. As metáforas são uma maneira de ajudar as nossas mentes a processar o improcessável. Os problemas surgem quando começamos a acreditar literalmente nas nossas próprias metáforas.
Dan Brown

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

ora...deixem cá ver...
(foto: Encanto, de Karina)
era só um miúdo

na minha terra havia um homem que não tinha um dos olhos. por isso toda a gente o tratava por zarolho. toda a gente, não. os adultos só o faziam quando ele não estava presente e, mesmo assim, só aqueles que por um motivo ou outro não gostassem dele.
eu e os meus colegas da escola costumávamos esperar que ele chegasse de autocarro para depois o perseguirmos. nessa perseguição íamos sussurrando: z, z, z, zar, zaro, zarolho... e depois desatávamos a correr, porque ele, danado, punha-se a atirar-nos pedras e a dizer que um dia se havia de vingar. eu, do grupo, era aquele que dava menos importância ao homem. achava piada à atitude dele: era tão grande e agia como uma criança. no entanto, os meus colegas, todos os dias, inventavam alguma história nova para arreliar o pobre do homem...
a pior de todas foi quando eles decidiram que o filho do tal homem também devia ser gozado. eu ainda tentei fazê-los mudar de ideias, mas eles nem me quiseram ouvir.
e foi assim que tudo se passou: no dia de uma semana qualquer, quando o miúdo ia para casa sozinho, resolveram acompanhá-lo. éramos quatro (acabei por entrar na “brincadeira” já que fazia parte do grupo...). um ultrapassou-o, dois ladearam-no e eu caminhava atrás. depois de cinco minutos, em silêncio, apressando o passo, quando ele o fazia e desacelerando-o, quando desesperadamente tentava escapar, o pobre rapaz foi ouvindo, enquanto aguentou, as nossas ‘bocas’.
a certa altura, não suportando mais, parou, agarrou em pedras e começou a atirá-las. como éramos quatro a sua tentativa desesperada de defesa não deu resultado: agarramos-lhe imediatamente nas mãos. e os meus colegas empurraram-no, começando-lhe a bater. fiquei paralisado. gritei. ninguém me ouvia. deitei-me, então, sobre o miúdo. e só assim os outros pararam. olharam para mim com ódio e chamaram-me cobarde. não me importei nada. estava preocupado com aquele ser tão pequeno e que a chorar tremia nos meus braços. peguei nele ao colo e levei-o para sua casa.
dias mais tarde, e preocupado porque não o tornara a ver na escola, fui lá a casa. quando cheguei estava tudo em silêncio. as pessoas estavam vestidas de preto. avancei por aquela pequena multidão e no fim dela estava uma caixa e dentro uma criança: o filho daquele homem tão grande que, àquele canto sentado a chorar, parecia tão pequeno...
quis saber como tinha sido...disseram-me que se tinha matado.
fiquei horrorizado. naquele momento odiei-me a mim próprio. tive vontade de matar os meus colegas.
agora, e passados que são tantos anos, tenho pena desses colegas... nunca mais fui capaz de olhar para eles. de mim continuo com ódio.
estou sozinho na vida. naquele dia aprendi que jamais poderia fazer alguém feliz!

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

nota final...

After
Lilya Corneli