-Bom dia – disse o principezinho.
-Bom dia –disse o agulheiro.
-O que fazes aqui? – disse o principezinho.
-Separo os passageiros em pacotes de mil – disse o agulheiro. – Dou a partida aos comboios que os levam, ora para a direita, ora para a esquerda.
E um rápido iluminado, rugindo como um trovão, fez tremer a cabina do agulheiro.
-Têm muita pressa – disse o principezinho. – O que procuram?
-Nem sequer o próprio maquinista o sabe – disse o agulheiro.
E em sentido inverso, rugiu um segundo rápido iluminado.
-Já estão de volta? – perguntou o principezinho...
-Não são os mesmos – disse o agulheiro. – É uma mudança.
-Não estavam satisfeitos onde estavam?
-Nunca se está satisfeito onde se está – disse o agulheiro.
E rugiu o trovão de um terceiro rápido iluminado.
-Estão a perseguir os primeiros passageiros? – perguntou o principezinho.
-Não perseguem nada – disse o agulheiro. – Dormem lá dentro ou então bocejam. Só as crianças esmagam o nariz contra as vidraças.
-Só as crianças sabem o que procuram – disse o principezinho. – Perdem tempo com uma boneca de trapos e ela torna-se muito importante, e se lha tiram, chora...
-Têm sorte – disse o agulheiro.
Antoine de Saint-Exupéry
O Principezinho
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deveríamos perder mais tempo com bonecas de trapos?!...
(...)
julgo que sim...
O texto de que transcrevi de O Principezinho faz parte duma ficha de trabalho que propus a uma das turmas que tenho neste ano. A propósito dum comentário que se pedia sobre a oposição que se estabelece entre o mundo das crianças e o mundo dos adultos, uma jovem de 14 anos escreve assim:
As crianças vivem num mundo criado por elas próprias, onde não existe maldade, terror, tristeza, nem nada de mau. É com esta ilusão que elas são felizes.
Os adultos vivem num mundo completamente diferente. Cheio de maldade, tristeza, onde toda a gente se preocupa apenas consigo mesmo.
Enquanto as crianças vivem felizes com o mundo que vão construindo, os adultos já o têm construído e vão dando cabo dele.
As crianças apenas têm certezas, certezas daquilo que têm e querem, enquanto que os adultos só conseguem ter dúvidas e preocupações.